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CRÍTICA| Mary Shelley e a criação que vem da solidão



Há mais de duzentos anos a autora Mary Shelley dava vida a uma das criaturas mais emblemáticas da literatura fantástica mundial, para celebrar esta data a diretora Haifaa Al-Mansour e a roteirista Emma Jensen transformaram em filme todo o processo criativo que culminou na criação do monstro de Victor Frankenstein.

A jovem Mary Wollstonecraft Goldwin (Elle Fanning) é obrigada a deixar Londres e ir para Escócia devido à uma série de desentendimentos com sua madrasta. Durante esta temporada longe de casa ela conhece o jovem e famoso poeta Percy Shelley (Douglas Booth) por quem tem uma paixão quase que instantânea. Sem saber que seu pretendente era casado, Mary se envolve com ele e, assim começa sua intensa jornada de paixões e decepções que culminarão na criação da Criatura.



Durante o breve período que se passa a história do filme Mary enfrenta a perda de sua primeira filha com Shelley, que a faz desmoronar em uma profunda depressão, lida com o jeito disfuncional do parceiro e com a carência de sua meia-irmã, Claire (Bel Powley), desce até o fundo poço e, quando enfim consegue ressurgir com seu Prometeu Moderno, tem ainda de enfrentar todo o machismo que permeia a época e que enfrentamos até hoje.

Apesar de ter escrito uma obra genial Mary tem seu manuscrito negado por diversas editoras e, quando uma delas enfim decide publicá-lo, é apenas sob a condição de que seja publicado anonimamente e que seu então companheiro Percy Shelley escreva a introdução. O reconhecimento pelo seu trabalho só chega anos depois, quando na segunda edição, finalmente o livro é publicado dando seu devido crédito à agora Mary Shelley.



Um dos momentos do filme que mais me pegou foi quando Claire, a meia-irmã de Mary, diz a ela o que sentiu lendo sua história, naquele momento ela se sentira como o monstro que havia sido renegado pelo seu próprio criador e que agora queria buscar sua vingança. É interessante perceber como essa história, assim como inúmeras outras que vieram depois dela, apenas usa do artifício da criação do monstro para expressar sentimentos e necessidades que são profundamente humanos como a angústia, solidão e o completo abandono do outro e de si mesmo.



Eu gostei muito do filme, não é uma grande adapção, mas acho inclusive que ele nem se vendeu dessa forma. As atuações são muito boas, dando destaque aqui para Elle Fanning e Bel Powley que souberam dar vida a suas respectivas personagens. Mary Shelley está disponível na Netflix e acho que é um bom filme para você investir seu tempo neste fim de semana.

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